Quatro patas

PAWPRINT

Eu me apaixonei pelos seus enormes olhos castanhos. Recebi a foto dele por e-mail, e no meio de tantos outros, ele me chamou a atenção. Na mesma hora, o pensamento certeiro cruzou a mente: Ele será meu. Ele chegou numa tarde quente de verão, final de janeiro. Era muito tímido, um pouco cabisbaixo, evitava fitar-me nos olhos, parecia um pouco assustado, mas não se intimidou nem um pouco quando decidiu verificar o que tinha para comer no armário da cozinha. Não soube me dizer a idade que tinha. Colocou a cara lá dentro e farejou a despensa, cauteloso e silencioso. Em poucos minutos, porém, já acreditava ser era o proprietário do recinto. Logo gostou do sofá. E da cama de solteiro no quarto do meu filho também. Dormiu várias noites nela, enquanto desocupada. Sentia-se bastante à vontade com a comida também. Certa vez, roubou um frango inteiro em cima da mesa, sem pedir permissão. Demorou alguns dias até que passasse a depositar plena confiança em nós. E também, não confiava muito no espelho. Acreditava que sua imagem nele refletida, tratava-se na verdade, de um outro indivíduo da sua matilha da qual ele era o alfa. Vocalizava nervoso, ameaçando-a. Fazia isso, principalmente, de madrugada, período do dia em que muitos deles gostam de iniciar uma conversa. Precisei cobrir parte do espelho com um pôster de uma galáxia que veio anexado a um dos meus exemplares da revista National Geographic – já me aventurei na astronomia amadora por um tempo, deixo o assunto para outro texto – foi a forma que encontrei para impedi-lo que latisse alto mais uma vez, no meio da noite, para a própria imagem refletida.

Certa noite, ele me mordeu. Levantei no meio da noite para buscar um copo d’água, e quando retornei, passei pelo lugar onde dormia. Ele acordou, eu sentei no chão e lhe abracei. Foi quando mordeu meu rosto. Não foi nada grave, porém a atitude foi inesperada e me assustou, mesmo o tendo perdoado no mesmo exato momento, obviamente. Percebi que talvez sua história – desconhecida para mim – tenha gerado algum tipo de desconfiança e resolvi ter cautela e paciência para ganhar sua total confiança. Precisava ganhá-la. Ele havia me fisgado. Mas isso foi há quase um ano. Hoje, posso abraçá-lo, até enterrar a cabeça em seu pêlos brancos e macios. Ele não se importa, deita de costas no chão gelado e abana o rabo, retribuindo o carinho.

Ele é um dos quatro bichos que invadiram permanentemente o meu coração. Todos eles me transformaram de alguma forma, me tornaram mais humana, me ensinaram que o amor não é aquele sentimento humano recheado de ciúmes e melodramas que vemos por aí, e sim a mais pura forma de expressão de afeto e doação. Eles permanecem na nossa vida mesmo depois de terem partido do plano físico e deixam a bela lição a respeito do que realmente importa nessa jornada.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s